Dia do Magistrado: diferentes gerações refletem sobre responsabilidade nas decisões e paixão pela profissão
"Eu fui advogado durante 15 anos. E essa vivência como advogado começou a despertar em mim uma vontade de ser juiz. Por quê? Porque eu via nessa profissão uma responsabilidade enorme, uma função em que você consegue mudar a realidade social das pessoas."
Foi essa vontade que levou o juiz João Zacharias de Sá, aprovado em 1º lugar no último concurso do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), até a magistratura. Embora ainda não tenha completado um ano desde sua posse, a bagagem construída ao longo da trajetória fez com que ele já chegasse ao cargo ciente do tamanho da responsabilidade exigida pela profissão — e, no dia 11 de agosto, ele celebra pela primeira vez o Dia do Magistrado como juiz.
Depois dos 15 anos como advogado, João foi aprovado para o cargo de promotor de Justiça, função que exerceu por cerca de um ano até ser convocado pelo TJRJ. Essa experiência — considerada por ele fundamental para o exercício da função atual — fez com que passasse a compreender o funcionamento do sistema de Justiça a partir de diferentes perspectivas.
"O promotor é indispensável, o advogado é indispensável e o juiz é indispensável. Não existe uma hierarquia entre o juiz, o promotor e o advogado. O que existe são pessoas desempenhando papéis diferentes para que o sistema de Justiça funcione. É uma engrenagem e, para ela fluir, todos os profissionais precisam desempenhar as suas funções da melhor forma possível. Ter participado dessas três posições me faz valorizar, admirar e respeitar cada uma delas."
Atuando na Vara Especializada em Crimes Contra a Criança e o Adolescente (Veca), João fala com muito orgulho do caminho que traçou.
"As minhas expectativas foram superadas, pois mostraram na realidade que o juiz, ao agir dentro da lei e de acordo com seus princípios, realmente tem a aptidão de promover grandes diferenças e mudar a realidade de muitas pessoas. O Dia do Magistrado representa a realização de um sonho, de uma conquista muito batalhada e merecida, porque só nós mesmos sabemos o quanto fizemos para estar aqui."
O juiz João Zacharias de Sá conta que, com menos de um ano na carreira, teve suas expectativas superadas ao exercer a profissão
A porta de entrada
Trajetórias como a de João passam pelas mãos da secretária da Comissão de Concursos para Ingresso na Magistratura de Carreira, desembargadora Cristina Serra Feijó, desde 2020. Com mais de três décadas de profissão, ela acompanha de perto o processo de seleção dos juízes e juízas que chegam ao Judiciário fluminense — muitos deles já ocupando cargos públicos em outros estados e escolhendo o TJRJ como destino. Além da qualificação técnica, a magistrada tem observado a maturidade como uma das principais características dos recém-chegados.
"Tenho notado que os novos juízes chegam muito bem preparados e prontos para a atuação. No passado, havia talvez um deslumbramento maior com o status; hoje, vejo mais maturidade."
Nesse contato próximo com quem está dando os primeiros passos, a desembargadora busca passar confiança aos aprovados, sem deixar de lado a imparcialidade e o lado humano na hora das decisões.
"O que passo para eles é: não tenham medo de decidir. Quando as pessoas vêm ao Judiciário, todos os outros mecanismos já falharam na tentativa de solucionar o conflito, então, temos uma responsabilidade enorme; por isso, também procuro orientá-los sobre o senso de responsabilidade, a isenção e a importância de nunca perder a humanidade na hora de julgar."
Além dos aspectos técnicos e da experiência, a magistrada reforça a importância de ter amor pela profissão.
"Eu adoro o que eu faço, acho interessante e me realizo. O trabalho é pesadíssimo, muitas vezes solitário, e carrega uma pressão enorme. Mas é apaixonante quando você compreende que as pessoas estão vindo a você para tentar minimizar um conflito. E digo para eles também: apaixonem-se pela profissão!"
A desembargadora Cristina Serra Feijó atua como secretaria da Comissão de Concursos para a Magistratura e observa maturidade nos magistrados que chegam ao Tribunal
Busca constante pelo aperfeiçoamento
O período de estudos, no entanto, não termina após a aprovação no concurso. A Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro (Emerj) recebe os recém-aprovados para a formação inicial, quando são apresentados à rotina do TJRJ, e segue acompanhando os magistrados durante toda a carreira com cursos de aperfeiçoamento em diferentes áreas.
Entre as demandas mais recentes, o diretor-geral da Emerj, desembargador Cláudio Luís dell'Orto, destaca as transformações tecnológicas como o uso de inteligência artificial e os contratos digitais, abordados em cursos da Escola. Para ele, os magistrados devem ter atividade associativa e buscar integração, trazendo eficiência, agilidade e qualidade ao trabalho — e defende que o Judiciário busque se adaptar a essas mudanças tecnológicas.
Na magistratura desde 1991, o desembargador considera que a capacitação contínua é um dos principais pilares da força do Poder Judiciário.
"O dia 11 de agosto representa para a magistratura, de um modo geral, uma data que deve ser muito comemorada, porque o Brasil talvez seja o país que mais investiu na preparação dos seus juízes. Ter um Poder Judiciário técnico, bem preparado e não vinculado a questões político-partidárias é muito importante para a sociedade."
Na magistratura desde 1991, Cláudio dell'Orto destaca a necessidade de adaptação às transformações tecnológicas
PB/SF
Fotos: Felipe Cavalcanti e Renan Ribeiro