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09 de Julho de 2020 - 

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Mulheres no Legislativo

“Eu nunca vi gostar de puxar um tapete como os homens gostam. Eles acham que só eles podem ser eleitos.” Esse pensamento de indignação esboça um pouco da trajetória desafiadora percorrida pela ex-deputada estadual Dária Alves. Ela foi, em 1994, a quinta parlamentar mais bem votada do PMDB (atual MDB) em Goiás e a sexta a arrebanhar maior número de votos entre os 41 deputados eleitos. Exerceu seu mandato durante a 13ª Legislatura (1995-1999), em que integrou a Mesa Diretora, como segunda secretária.  Para a trindadense, que nasceu no dia 6 de julho de 1948, ocupar a segunda secretaria da Mesa Diretora da Assembleia Legislativa de Goiás (Alego) foi uma conquista não apenas para ela, mas para todas as mulheres goianas. A ex-parlamentar explica ter entrado em acordo com as outras cinco deputadas eleitas para aquela Legislatura — Denise Carvalho, Mara Naves, Nelci Spadoni, Onaide Santillo e Vanda Melo— e que, juntas, decidiram indicar Mara Naves para assumir a segunda secretqria no primeiro biênio. Dária viria, então, posteriormente, a dar seguimento aos trabalhos da colega. “Mas isso deu um problemão. Os homens não queriam. Aí as mulheres se reuniram de novo e falaram que se eles não me colocassem, nós não íamos votar em ninguém. Nós éramos unidas”, conta entusiasmada. Durante seu mandato como deputada, Dária criou a Comenda Berenice Artiaga – a mais alta honraria que presta homenagem a mulheres fortes, atuantes e que representam o povo goiano. A comenda leva o nome da primeira mulher eleita deputada estadual em Goiás, em 1951. A condecoração foi instituída em 1998 pelo então presidente da Casa de Leis, Helenês Cândido. Berenice, que faleceu em 2012, participou de várias solenidades de entrega da comenda. O projeto, que tem uma grande importância para o contexto da representatividade feminina no Estado, é motivo de enorme orgulho para a entrevistada. “Nós vemos que aqui, na Assembleia, a entrega da Comenda Berenice Artiaga é uma das solenidades mais concorridas. Hoje eu homenagearia muitas mulheres de Trindade. Muitas das que trabalham na Vila São Cottolengo, por exemplo”, afirmou a ex-parlamentar.  Posicionamento forte, poder de decisão e apreço pela política são qualidades intrínsecas à personalidade de Dária Alves. Ela conta que desde a infância acompanhava seu pai, Sebastião Alves Rios, em comícios no município de Trindade. “Havia o Hilton Monteiro da Rocha (natural de Uberaba-MG/1924-1978. Filiado ao Partido Social Democrático. Foi prefeito do município de Trindade de 1955 a 1958, e de 1966 a 1970. Ficou conhecido por ter fundado o Largo Novo de Trindade — um moderno prédio, para a época, que abrigava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário —, por quem eu era alucinada. Achava ele o máximo. Foi o primeiro político que eu conheci e meu pai era seu cabo eleitoral. Fazíamos os seus comícios na fazenda, quando eu já tinha uns 10 anos”, relata. Desde então, Dária nunca mais se desligou da vida política. Foi líder estudantil em Goiânia e Trindade e organizou movimentos religiosos e comunitários na região. Além disso, mais adiante, ela também acabaria se destacando como empresária, tendo fundado e presidido a Associação de Confeccionistas de Trindade (Assivest). Dária relata que foi pioneira no ramo de confecções de sua cidade, e que se destacou na mesma medida frente à organização de movimentos religiosos. “Fui a primeira confeccionista de Trindade e a primeira mulher a coordenar o movimento de cursilho (movimento católico, iniciado em 1948 na Espanha, que buscava orientar leigos a respeito de determinadas bases doutrinárias da religião) de lá”, diz orgulhosa. Tendo sido criada numa fazenda em Abadia de Goiás – município que ela mesma lutou por emancipar (o feito se deu no ano de 1995), a história de Dária,  como se pode notar, deixou marcas importantes para Trindade e região. Marcas estas que permanecem vivas até os dias atuais, visto que sua busca incessante pelo bem-estar social da população se estenderia para muito além do seu mandato na Alego.  Isto porque ela foi encontrando, ao longo do tempo, suas próprias maneiras de viabilizar, por exemplo, recursos destinados a ajudar aqueles que ainda hoje a procuram. “Eu arrumava shows para arrecadar dinheiro. Levei a dupla Leandro e Leonardo e o Dalvan (João Gomes de Almeida) para cantar em Trindade. Minha vida foi assim. Eu nunca parei na minha cidade. Eu nunca parei de ajudar, de trabalhar, de pedir e de fazer alguma coisa pela população”, sustenta. A preocupação em ajudar a população de sua cidade natal levou Dária a criar o programa “Fala Trindade: bronca do povo”, que há seis anos é transmitido diariamente, às 8h30, pela Rádio Comunitária do município (87.9 FM). Para ela, a iniciativa se destaca como sendo uma ponte muito importante de comunicação entre o poder público e o cidadão trindadense, que se vale do canal para enviar ali, ao vivo, suas denúncias a respeito dos problemas relacionados à administração municipal. A entrevistada afirma que todas as reclamações têm sido devidamente encaminhadas às autoridades competentes. “É uma rádio comunitária e ela cumpre plenamente a missão ao pulgar e cobrar do poder público. A população interage com a programação por meio de ligações e áudios. Todas as perguntas são feitas, doa a quem doer. Eu não escondo, de ninguém, os fatos, porque preciso respeitar meus ouvintes”, explica.  No que tange ao espectro de atuação político-partidária, Dária já esteve, ao longo de sua trajetória, filiada aos quadros de várias legendas. Além do atual MDB, ela passou também pelo Progressistas (PP) e pelo Partido Renovador Trabalhista Brasileiro (PRTB). Hoje, ela exerce sua militância junto ao Partido Republicano da Ordem Social (Pros), sendo, inclusive, presidente da ala feminina da sigla em Goiás.  Mais detalhes sobre a trajetória de vida da ex-deputada Dária Alves podem ser encontrados na entrevista realizada por Samiha Sarhan, repórter da Agência Assembleia de Notícias para o projeto “Mulheres no Legislativo”. A matéria integra a 11ª edição da série criada para homenagear e valorizar o legado feminino no Parlamento goiano.  A senhora nasceu em Trindade. Sua família também era goiana? Como era a convivência familiar? Não. Meus pais não eram goianos, eram mineiros. Um era de Monte Carmelo e outro era de São Gotardo. Hoje somos sete irmãos. Quando minha mãe morreu, ainda jovem, nós éramos apenas três. José Alves Rios, Dalva Carvalho de Santana e eu, a caçula. Aí o papai se casou novamente e teve o Marcos Antônio Rios, o Mauro da Silva Rios, Mauri Carlos Rios e Márcia Natália Rios. Todos nós vivemos em Trindade. A minha infância foi bacana, embora eu tenha perdido minha mãe aos 9 anos de idade. Mas eu fui morar com a minha avó, e avó já explica tudo, né? Ela tinha um carinho diferente comigo porque tinha dó de eu não ter minha mãe por perto. Então, eu aproveitei muito. Minha infância foi toda em Trindade. Naquela época era muito bom. Eu tinha uma bicicleta. Foi uma vitória eu ter comprado minha bicicleta. Eu percorria aquela cidade inteira de bicicleta, ia fazer compras para minha avó e ela falava assim “você traz carne boa, senão eu devolvo”. Naquela época, a gente comprava carne dependurada em um cordão, pois não tinha sacola. Minhas tias moravam em fazenda e me davam requeijão e mexerica para vender na cidade. Foi uma infância bem interiorana mesmo. Eu vivi muito na fazenda antes da minha mãe morrer também. Era muito boa aquela vida de roça mesmo, né? Eu era muito feliz.  Conhecia todo mundo na cidade? Conhecia quase todo mundo. Atualmente não, pois a cidade cresceu demais. Mas eu sou muito ativa em Trindade. Eu fui criada na Igreja Católica. As crianças adoravam encontrar o Padre Pelágio, pedir a benção para ele e ganhar santinho. Eu tenho muito carinho por essa lembrança do Padre Pelágio. Hoje nós trabalhamos muito para a sua beatificação. Eu era muito envolvida nos trabalhos da igreja na época.   Foi em Trindade que a senhora conheceu José Rodrigues, seu marido?  Não. Foi aqui em Goiânia. Minha avó mudou para Goiânia para morar com o filho dela e eu vim junto. Depois a minha irmã se casou e eu fui morar com ela. Mas antes de morar com minha irmã, eu morei com a minha tia. Eu era louca para casar e ter a minha casa. Aí conheci o Zezé quando eu tinha 17 anos e estamos juntos até hoje, há cinquenta e tantos anos. Só de namoro foi um ano e meio e temos 48 anos de casados. Então, o Zezé é o Zezé, não tive outro na vida. A senhora foi líder do movimento estudantil em Trindade e também em Goiânia, nos tempos em que estudava no Colégio Pedro Gomes. Como começou essa militância? Por quais causas lutava? Estudei no Pedro Gomes e no Santa Clara. Durante toda vida eu gostei de política. Com nove anos de idade eu acompanhava meu pai nos comícios lá em Trindade. Havia o Hilton Monteiro da Rocha (natural de Uberaba-MG/1924-1978. Filiado ao Partido Social Democrático (PSD). Foi prefeito do município de Trindade de 1955 a 1958, e de 1966 a 1970. Ficou conhecido por ter fundado o Largo Novo de Trindade - um moderno prédio, para a época, que abrigava os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário), por quem eu era alucinada. Achava ele o máximo. Foi o primeiro político que eu conheci e meu pai era seu cabo eleitoral. Fazíamos os comícios seus na fazenda, quando eu já tinha uns 10 anos. Fui a primeira confeccionista de Trindade e a primeira mulher a coordenar o movimento de cursilho de Trindade. Eu fazia de tudo. Por exemplo a população não precisava se deslocar para fazer um tratamento de saúde. Eu arrumava shows para arrecadar dinheiro. Levei atrações como a dupla Leandro e Leonardo e o Dalvan para cantar lá. Esses shows eram voltados para ajudar as pessoas, por meio de doações. Minha vida foi assim. Eu nunca parei lá em Trindade. Eu nunca parei de ajudar, de trabalhar, de pedir e de fazer alguma coisa pela população. Depois de ter militado na causa estudantil, a senhora cursou o magistério e vai atuou como professora na rede pública municipal de Goiânia, certo? Sim, depois de atuar na rede pública eu cursei marketing pela Unopar. Na faculdade Afonsiano, eu fiz Gestão Pública. Eu fui professora em Abadia de Goiás no primeiro mandato do Iris Rezende. Tinha 17 anos quando comecei e trabalhei lá durante três anos. Eu fui criada ali em volta de Abadia, na fazenda e, por isso, sou muito ligada àquela região.  A senhora acredita que a opção por fazer magistério teve alguma ligação em relação à sua participação na causa estudantil?  Tudo que fiz na vida eu achava que não tinha coisa melhor. Quando fui professora, achei que fosse fazer isso para sempre, pois adorava minha profissão. Depois eu comecei a atuar na confecção e logo pensei: “ah, mas que beleza, né? Vou trabalhar com confecção pelo resto da minha vida”. Então eu entrei para a política e tive que encerrar as minhas atividades com comércio, porque não tinha como conciliar. Diante disso, considerei: “agora vou trabalhar com política para o resto da vida”. Mas não. Hoje tenho uma pousada, que existe há seis anos, onde recebo hóspedes e grupos do interior do Brasil em Trindade. Tenho também um programa de rádio que funciona, há 12 anos, todos os dias das 8h30 até 10 horas da manhã. Atualmente, o que mais me faz feliz é o meu programa de rádio, porque me proporciona um contato intenso com a população mais carente. Tenho muito cuidado porque eles acreditam em tudo que digo. É uma rádio comunitária e de muita credibilidade, que cumpre piamente sua missão ao pulgar e cobrar do poder público. Meu programa se chama “Fala Trindade: bronca do povo”. Por aí você já vê. Tenho parceria com todos os órgãos municipais. Eu cobro de quem precisa ser cobrado, mas agradeço também. Faço tudo com muito amor. Esses dias eu fiz uma entrevista com o diretor geral do Hospital Estadual de Urgências de Trindade (Hutrim). Foi quase uma hora de entrevista. Excelente. Amanhã eu vou entrevistar um senhor que tem um viveiro de mudas por lá. Ele vai ensinar como é feito o plantio de maneira adequada, quais plantas podem ficar expostas ao sol e tudo mais sobre jardinagem. É uma entrevista de utilidade pública. Na quinta-feira, vou entrevistar o superintendente de Vigilância Sanitária de Trindade. Ele vai falar sobre prevenção a ataques de escorpião e sobre as doenças transmitidas pelo mosquito da dengue. Eu também faço entrevistas por telefone. A população interage com a programação por meio de ligações e áudios. Todas as perguntas são feitas, doa a quem doer. Eu não escondo, de ninguém, os fatos, porque preciso respeitar meus ouvintes. Em que momento a senhora começou a se interessar por seguir carreira política? Foi em 1992. Tínhamos um movimento muito grande de confeccionistas e participávamos de muitas feiras. Fomos para a Feira Nacional de Indústria Têxtil (Fenit), na Goiás Vive Verão também. Em tudo a gente estava na frente. Daí os confeccionistas lançaram o meu nome para prefeita de Trindade. Mas sempre houve o machismo e a convenção de que você precisava passar por votação dentro do diretório do partido. Eu não tinha votos. Eu tive o meu voto e o da minha tia. Mas a mulher quando fala, quando resolve, ela tem que ser determinada. Senão o povo desacredita. Aí nós fomos para convenção como se nós tivéssemos toda a chance de sermos votadas. Eu não consegui nenhum homem para ser meu vice, porque eles não podiam desagradar o mandante do PMDB. Não vou falar o nome dele porque não interessa agora. Então eu consegui que a minha costureira Dona Josefina Dias Reis fosse lá me apoiar. Ela falou “Dária, o que tenho que fazer?”. Eu disse que só tinha que assinar um documento, se ela já fosse filiada ao PMDB. Toda a turma foi para a convenção. Eu tive sete votos, e com isso minha turma já me lançou para candidata a deputada estadual em 1994. Eles tentaram puxar meu tapete, mas não deram conta. Eu fui a quinta mais votada do PMDB e a sexta dos 41 deputados. Meu nome virou moda. Havia pais que chegavam lá na minha casa para pedir um adesivo com meu nome porque os filhos não queriam ir para a aula se não tivesse adesivo no carro, porque os amigos tinham. Eu nunca tinha sido candidata e, na época, eu tive 13 mil votos só em Trindade. Tive um total de 16 mil votos. Mas também não ganhei mais. Tomei bomba no resto.   A senhora foi deputada estadual pelo PMDB, mas já passou também pelo PP e PRTB. Quando foi que a senhora se filiou a um partido político pela primeira vez? Foi o próprio PMDB? Como se deu essa escolha?  O presidente do PMDB na época era meu compadre, João de Deus Chaves Aguiar. Ele me filiou porque já estava fazendo as filiações naquele período. Ele pensou na possibilidade de eu ser até candidata a vereadora. Mas aí surgiu a oportunidade de me candidatar a deputada estadual. Eu já era seguidora do PMDB porque o meu meu pai votou para o Iris Rezende para vereador em 1957. Então eu cresci naquele ambiente que era PSD, depois veio o PMDB. Eu votei para o Maguito Vilela para deputado federal, ou seja, eu fui criando vínculo com o partido.  Nas eleições do ano passado a senhora se candidatou novamente a deputada estadual, pelo PRTB, mas não conseguiu se eleger. A senhora permanece nessa legenda? O que motivou cada mudança de partido? Eu era presidente estadual do PP Mulher junto ao secretário Wilder Morais. Nós fizemos um trabalho bom. Eu representava o ex-senador em vários eventos, fui para o interior na campanha de prefeitos. Era tudo muito bom. Mas puxaram o tapete dele e pegaram o PP. Daí eu saí do PP junto com ele e escolhi o PRTB por indicação e me candidatei. Mas hoje eu estou filiada ao Pros. Sou presidente estadual do Pros Mulher, porque eu acompanhei o senador Wilder Morais. A senhora foi deputada estadual e firmou base em Trindade e região. Quais bandeiras e segmentos você defendia?  Um dos projetos que eu fiz como deputada foi a emancipação de Abadia de Goiás. Lá havia uma rua quem, do lado direito era Trindade e do lado esquerdo, era Goiânia. Nem o prefeito de Trindade fazia alguma coisa, nem o de Goiânia. Em 1995, nós emancipamos a cidade. Abadia cresceu tanto que nem está nessa lista de extinção do governo federal. Tem quase dez mil habitantes. A primeira prefeita de Abadia foi minha assessora, Telma Ortegal, que ficou só seis meses no mandato, pois veio a falecer. Daí, o vice-prefeito assumiu. Foi missão cumprida. A questão religiosa, um perfil forte na região de Trindade, teve influência em sua candidatura e, posteriormente, em seu mandato? Antes do mandato, a fonte de renda em Trindade era a confecção. Mas, com a vinda do Padre Robson houve uma virada na cidade. É como se outra Trindade tivesse sido criada. Naquela época tinham dois hotéis bem simples. Hoje nós temos lá mais de 80 hotéis e pousadas. Só nesse final de semana tinha mais de 80 ônibus e mais de 4.700 pessoas hospedadas nos hotéis e pousadas. Isso gera muitos empregos e também atrai muitas lojas. Hoje também temos o programa de televisão "Filhos do Pai Eterno". É outra cidade.  Ao final do mandato, considera ter conseguido alcançar bons resultados em relação às promessas de campanha? A minha principal bandeira, que até hoje eu acho super importante, é a criação de empregos no interior. Goiânia inchou. Mas, se você criar empregos nas cidades do interior, as pessoas não vão perder a raiz. Elas vão ficar na cidade, vão trabalhar na cidade. Trindade deixou de ser cidade dormitório. Eu acho que o Governo precisa levar empresas para o interior e parar de acumular em Goiânia. O trânsito de Goiânia vai melhorar, o transporte público vai melhorar, porque as pessoas vão ficar fixadas em suas cidades. Agora é necessário melhorar a energia elétrica. Em Trindade há setores que ficam dois ou três dias sem energia. Estou falando de lá, porque moro lá. Mas é geral. Tem que solucionar o problema da água, porque ninguém aguenta pagar esse preço de esgoto e água do jeito que está. Em Trindade, o Governo anterior terceirizou o tratamento de esgoto e virou tudo um caos. É preciso criar pólo industrial, mas não de pequeno porte. Tem que levar indústria grande para o interior, para gerar emprego mesmo.  A senhora defendia que os rejeitos do césio 137 fossem para Abadia de Goiás?  Sim, eu acho que nunca houve em Goiânia, ou no Estado de Goiás, tantos votos contra a emancipação de uma cidade. Mas naquela época houve. O pessoal daqui de Goiânia não queria. Eles estavam impedindo por questão de limite. Então eu cheguei e falei que eles estavam sendo bobos, pois nós estávamos tirando o césio de Goiânia e passando a ser de Abadia de Goiás. Todo mundo falava que o césio estava em Goiânia, ficava aquele estigma. Aí eles concordaram. Depois nós sofremos para acabar com a discriminação pelo fato de o césio estar em Abadia, mas hoje não se fala mais nisso.  Algo que teria ficado pendente a estimulou a voltar a concorrer nas eleições do ano passado?  Sim, eu concorri nas eleições novamente para continuar meu legado. O prefeito de Trindade está cuidando direitinho da cidade. Lá já existem muitas faculdades mas, para mim, o que é mais preocupante é o desemprego. O País todo está sofrendo com a falta de emprego. A senhora é mãe de três filhos. Quando abraçou a vida política, que idade eles tinham? Foi possível conciliar a vida política com a vida familiar?  Sim, tenho três filhos e cinco netos. Um fez 18 anos depois da eleição, o outro tinha 16 anos e a mais velha já tinha feito 20. Não foi fácil, porque eu criei meus filhos em volta de mim. A minha confecção era ao lado da minha casa. Quando começava a chover eu saia na rua, gritava e meus filhos traziam tudo para dentro. Eu era motorista deles também. Eu que fazia tudo, pois o meu marido trabalhava fora. Quando eu entrei para a política, a minha casa abriu as portas para a população. Eu tive problemas, porque meus filhos estavam acostumados a chegar e o almoço estar pronto. Mas depois mudou tudo. Eu tinha uma secretária que abria a porta da casa e ficava sentada ali o dia todo recebendo as pessoas e anotando os recados. Isso se deu pois uma das minhas bandeiras na campanha era “Vote numa Trindadense porque vocês não precisam sair de Trindade para falar com deputado. Eu vou estar aqui”. Nós tínhamos apartamento em Goiânia para os meninos estudarem, mas eu nunca dormi lá. Eu saia meia-noite e seis horas da manhã já tinha gente na porta da minha casa em Trindade. O que eu falei, eu cumpri. Tive problema com meus filhos, porque eles me cobravam. Eu não tinha mais aquela tranquilidade de terminar de almoçar e deitar no sofá. Mas eles foram aprendendo e se acostumando com as novas circunstâncias. Meu marido era delegado fiscal do interior e trabalhou em persas cidades. No final de semana ele estava em casa. José Rodrigues, seu marido, te apoiou para entrar na vida política? Sim, ele foi companheiro. Ele é um articulador de primeira. Eu acho que ele é mais político do que eu e sempre me apoiou. Eu tinha 42 anos quando eu me candidatei para prefeita. Foi uma brincadeira. Meu irmão perguntou porque eu não me candidatava a prefeita. O Zezé, meu marido, estava junto, na ocasião, e eu disse que ele não gostava de política. Daí ele disse que se eu quisesse me candidatar, eu poderia. Foi a mesma coisa de me tirar de uma gaiola. Assim eu me candidatei. Eu nunca fiquei uma eleição sem estar na política, sendo candidata ou não. Eu nunca fiquei em cima do muro. Eu sempre tive meus candidatos e sempre os declarei. Por exemplo, todo mundo em Trindade sabe que o meu candidato a prefeito é o deputado Dr. Antonio e eu não escondo de ninguém.  Quem foram as suas fontes de inspiração para os seus trabalhos na carreira pública e na vida política?  Desde criança, sempre me inspirei no meu pai e também no político Hilton Monteiro da Rocha.  A senhora declarou em entrevista à TV Alego que “sempre abraçou a alegria e a tristeza das pessoas”- querendo dizer que sempre as ajudou a resolver seus problemas. De que forma fazia isso? Que tipos de problemas eram esses? A população me procurava, eu fazia shows, almoços, festas e bailes a fim de arrecadar dinheiro para ajudar as pessoas. Hoje eu tenho o programa de rádio. Então é mais fácil. Uma pessoa que me ajudou muito em Trindade foi o ex-governador Maguito Vilela. Quando um governador ganha, existem cargos que podem ser distribuídos entre os deputados. Daí, ele me chamou e disse que estava com muita dificuldade de disponibilizar cargos. Diante disso, eu disse que não queria cargo, e sim obras para Trindade. Tudo que eu precisei, ele fez. Estação de tratamento de esgoto; a Vila Vida, onde ficam os idosos; a duplicação da rodovia dentro de Trindade; escolas; etc. Toda demanda que eu trazia para ele era autorizada. Então, embora eu tenha sido criticada, eu acho que o político não é só para arrumar cargo, pois se eu arrumar cargo para você, eu estarei resolvendo seu problema. Mas se eu levar uma obra para a cidade, eu estarei resolvendo o problema da comunidade. Eu pensei assim e penso até hoje. Dizem que eu não consegui a reeleição porque eu não tinha cargos no Estado. Eu não consegui a reeleição porque as pessoas não votaram em mim, mas as obras estão lá. Às vezes as pessoas esquecem, mas não tem importância, o importante é minha consciência.  Em sua trajetória a senhora transitou por vários meios – escolar, religioso, confeccionista, comércio, indústria, dentre outros. Com qual desses segmentos a senhora se identifica mais e acredita ter mais contribuído? Por quê? Foi muito importante a emancipação de Abadia de Goiás. A estação de tratamento de esgoto também, porque eu não imagino Trindade sem uma estação de tratamento de esgoto. Nunca mais em alguma cidade o governo fez uma estação daquele porte. Se o Maguito Vilela não tivesse nos atendido, eu não sei como é que Trindade estaria cheia de fossas.  A senhora declarou em entrevista à TV Alego que “mesmo não estando na política, faz política”. Em que sentido a senhora usou essa expressão? Quando se fala em política o povo acha que é algo partidário, mas não é. Política é educação, é você lutar por uma feira melhor, por exemplo. Sempre que a população precisa de mim, eu estou pronta para ajudar. Essa semana eu fui no supermercado e achei interessante, pois o pessoal me conhece pela voz, né? Eu chego nos lugares e sou muito barulhenta. Dou bom dia a todos. Daí veio uma senhora atrás de mim e falou que a mãe dela queria me abraçar, queria me conhecer, mas que ela era cega. Eu fui até onde ela estava. Quando eu cheguei lá ela me abraçava tanto e me agradecia tanto pelo programa de rádio. Achei bonitinho que ela retirou o óculos escuros para conversar comigo. Aí nós conversamos e ela disse que dá gargalhadas sempre que se lembra das histórias que eu contei na rádio. O povo acha que política é só pertencer a um partido e pedir voto. Política é democracia. Não aprovo muita coisa desses políticos partidários. Há umas coisas de que tenho vergonha.  Como foi a sua relação dentro dos partidos que participou? Havia apoio real às suas candidaturas? Os partidos dão apoio aos candidatos, principalmente se perceberem que o candidato tem voto. A maioria concede material de gráfica. Na última eleição, meus filhos até me alertaram que nós não teríamos condições financeiras de manter uma candidatura. Eu discordei e disse que os partidos estavam mais juntos com as mulheres e que o povo não iria vender os votos mais, por causa da Lava Jato. Falei ainda que o povo estava mais politizado. Mas não mudou muita coisa não. As mulheres não se filiam aos partidos, elas lutam pela igualdade e pelo espaço político, mas na hora de candidatar elas não candidatam e na hora de votar não votam em outras mulheres. A Assembleia tem 41 vagas de deputados e, hoje, nós só temos duas deputadas. Na minha época, tínhamos cinco. Qual é a porcentagem maior dos eleitores de Goiás? São as mulheres. Mas cadê as mulheres? A maioria das mulheres é boa. Não vou falar que são 100% perfeitas. A política continua do mesmo jeito, assim como eu continuo na luta. Como a senhora procurava se destacar na Alego, tendo em vista que é um ambiente majoritariamente masculino? Eu fazia discursos de empoderamento das mulheres como se estivesse tudo sempre sob controle. Mas na hora de votar, elas não votam. As melhores para pedir voto são as mulheres. Você chega numa cidade na época da eleição, na época da campanha, você olha na rua e vê que a maioria são mulheres batendo de porta em porta pedindo voto para políticos homens. As mulheres sabem trabalhar. É claro que há exceção. Por exemplo, a deputada federal Flávia Moraes teve 180 mil votos. Ou seja, não são só homens que podem conquistar uma quantidade expressiva de votos, mas ainda falta muito.  Antes de colocar seu nome como candidata a deputada estadual, a senhora apresentou seu nome para ser candidata à Prefeitura de Trindade, mas foi impedida pelo partido (PMDB). A senhora acredita que as dificuldades para as mulheres na política são ainda maiores quando se fala de cargos no Executivo? Por quê? Em 1992 eu tentei me candidatar à Prefeitura de Trindade. Eu noto que para a mulher é difícil a disputa em qualquer área. Por exemplo, quando há uma solenidade aqui na Assembleia, você olha a mesa e só vê homens, de vez em quando que aparece uma mulher. Essa dificuldade para as mulheres se justifica pela falta de união entre elas. Os vereadores em Trindade têm 17 cadeiras, sendo quatro mulheres e uma suplente. Eu estou com 71 anos e eu calculo que vou viver mais uns seis ou sete anos (risos). Eu espero ainda ver se há alguma mudança, viu?  Como deputada estadual a senhora se elegeu pelo PMDB. Que papel a legenda teve na sua aprovação à Mesa Diretora como 2ª secretária? Nos dois primeiros anos daquela Legislatura foi a Mara Naves a indicada para o cargo de 2ª secretária da Mesa Diretora. Na ocasião, nos reunimos, as cinco deputadas eleitas, e decidimos que a Mara ocuparia a posição no primeiro biênio e depois eu assumiria. Mas isso deu um problemão. Os homens não queriam. Aí as mulheres se reuniram de novo e falaram que se eles não me colocassem, nós não íamos votar em ninguém. Nós éramos unidas.  Como era sua relação com os demais colegas parlamentares? Eles nos tratavam muito bem. Claro que tínhamos mais afinidade com uns do que com outros. Cada um tinha um círculo de amizade, né? Mas todos tinham consideração com a gente e nos tratavam muito bem. Nunca houve problema. Havia importantes embates de gênero naquela época? De quais se lembra? Havia sim. Se a Denise de Carvalho apresentasse um projeto, nós a apoiávamos, por exemplo. Tudo que tratava sobre mulher nós estávamos juntas. No momento não me recordo de nenhum projeto em especial, mas a mais polêmica era a deputada Denise mesmo.  Segundo informações coletadas nos arquivos da Casa, consta que a senhora apresentou 11 projetos durante a sua atuação parlamentar, enquanto deputada estadual da 13ª Legislatura, a maior parte deles de denominações e utilidade pública. Qual, dentre os seus projetos, você considera que tenha sido mais importante? Eu propûs a criação da Comenda Berenice Artiaga. Isso para mim é motivo de um orgulho muito grande, porque ela era viva e ainda muito participativa. Hoje nós vemos que aqui na Assembleia a entrega da Comenda Berenice Artiaga é uma das solenidades mais concorridas. Ela foi a primeira mulher eleita como deputada estadual em Goiás. Eu homenageei a Joana D'arc, que é do PT de Trindade. Tenho um respeito muito grande pelo trabalho dela. Também condecorei uma amiga que foi uma das primeiras confeccionistas aqui de Goiânia, a Diva. Me esqueci do sobrenome dela. Além de homenagear vereadoras e várias outras mulheres. Naquela época a gente homenageava uma ou duas apenas. Hoje eu homenagearia muitas mulheres de Trindade. Muitas que trabalham na Vila São Cottolengo, por exemplo.  Se fosse deputada hoje, qual projeto ou bandeira a senhora defenderia? Que pessoas seriam dignas da sua homenagem? Alguma mulher, em especial? Eu defenderia a bandeira da geração de empregos. Uma mulher que respeito muito, e também condecoraria com homenagens, é a Sandra Vilela. Acho que ela foi uma excelente primeira-dama. Ela é séria e muito voltada para a área social. Eu acompanhei os quatro anos dela muito de perto. Eu sei muito bem sobre o excelente trabalho que ela desenvolveu.  A senhora vê importantes diferenças entre o cenário político da época em que foi deputada e o atual? Houve avanços? E no tocante às questões femininas o que mudou? Sim, houve avanços. Os deputados estão mais preocupados com a transparência. Na minha época não existia o Portal da Transparência. Houve mudanças sim, na própria rede social. Tudo que você fala e faz, em questão de segundos, está publicado para o mundo inteiro. Acho que os políticos estão mais sérios. O passado é que ainda pesa muito. Em relação à mulher no cenário político, posso destacar o bom trabalho de algumas deputadas federais. As deputadas da Legislatura estadual também estão trabalhando muito. A mulher fica mais próxima da população, ela sente mais. É algo da mulher, pois ela pode ser mãe. Ela tem mais sensibilidade com os problemas da saúde, por exemplo. As mulheres têm conseguido um avanço muito bom. Depois de quase um século de participação das mulheres na política, ainda existem grandes dilemas que precisamos enfrentar para nos mantermos na vida pública. O que a senhora considera ser o maior desafio hoje para as mulheres naquilo que se relaciona à vida política? O maior desafio é você ter dentro do seu partido a igualdade para ser candidata. Ter a mesma ajuda financeira que os homens têm. Agora existe a cota. Eu sou a favor. Não pode colocar um substituto. Agora precisam tratar as mulheres a pão de ló, pois elas são importantes dentro da legenda. Mesmo assim não é fácil filiar a mulher dentro do partido. A cota é uma conquista. Eu nunca vi gostar de puxar um tapete como os homens gostam. Eles acham que só eles que podem ser eleitos.  Nós, mulheres, somos hoje mais de 50% da população, compomos grande parte da mão de obra no mercado de trabalho, sustentamos muitos lares e muitas famílias, somos também a maioria nas universidades, porém estamos longe de termos a mesma representatividade nos cargos eletivos do Parlamento. Na sua opinião ao que se deve essa realidade? Como a senhora acredita que as mulheres enxergam aquelas que estão na vida política do País? Parece que tem mulher que não gosta de ver a outra na política. Algumas pensam que somos incompetentes. Falam que não vamos dar conta. Torcem para dar errado. Nem todas são assim, mas há aquelas que são machistas. Isso é solucionado por meio da conscientização e da política educacional. Da mesma maneira que você trabalha com uma criança hoje para não jogar lixo na rua, você tem que trabalhar a importância da mulher. Mulheres estudam muito mais, ganham menos e são muito mais cobradas. Elas não podme errar de jeito nenhum. Os homens podem errar e é perdoado. Muita coisa tem que mudar. Tínhamos que ter pelo menos 10 deputadas aqui.  Na Alego, elegemos para a atual Legislatura apenas duas deputadas e voltamos ao patamar de 20 anos atrás, mesmo com um aumento exponencial no número de candidatas. Em relação a esse assunto e em termos de políticas públicas, o que precisa ainda ser feito para aumentar a representatividade feminina no legislativo e na política de forma geral? Acredito que isso só depende da mulher. Ela tem que bater o pé. Deve cobrar o mesmo tratamento que é dado aos homens. Está na hora H. Esse é o momento da mulher entrar na política porque tem a cota. Os homens não podem substituir as mulheres nas candidaturas. Nunca esteve tão bom para mulher entrar na política como agora. Tanto para vereadora, como para prefeita nas eleições de 2020, quanto para deputada estadual e federal em 2022. Eu só não entro de novo por conta da questão financeira e da minha idade. Eu fiz um compromisso com meus filhos ano passado de que seria a última vez que eu me candidatava. Mas não brinca comigo não que eu ainda quebro essa promessa (risos).  A senhora é favorável a que as mulheres tenham uma cota também dentro dos parlamentos? Tudo que era para favorecer a mulher estava certo, mas não passou. As mulheres do Congresso Nacional queriam criar essa cota que seria, por exemplo, dez vagas aqui da Assembleia Legislativa destinada para mulheres. Mas não passou porque a maioria que vota é masculina. Se tivesse criado essa cota de dez mulheres parlamentares, teríamos mais oito mulheres aqui dentro.  De que forma os homens devem entrar nesse debate para contribuir com esse tema? O que a sociedade ganha quando as mulheres chegam ao poder? Os homens defendem esse debate até o ponto de não prejudicá-los. Mas há homens que são companheiros, que defendem as mulheres. É raro, mas vai melhorando. A mulher tem um sentido diferente, uma responsabilidade, um constrangimento em se corromper. Ela sente mais vergonha de fazer coisa errada. É diferente. A mulher tem mais brio. Se eu fizer alguma coisa errada, sinto que meus filhos e meus netos vão ter vergonha de mim. Nós pensamos muito nisso. A cobrança é muito maior para a mulher e ela é mais sensível para lidar com essas questões.  Qual o legado que a senhora deixou na história do Parlamento goiano? Acho que foi minha alegria e minha responsabilidade aqui na Assembleia Legislativa. O tratamento que eu dei para as pessoas que me procuravam aqui. Eu acho que é isso. Qual incentivo a senhora poderia dar às mulheres para que elas possam participar da vida pública e política do nosso Estado? Acho que ela deve procurar o Pros, o meu partido (risos). O incentivo que eu tenho é que elas se filiem a um partido, porque assim terá mais voz. Tem que lutar.  As mulheres são muito acomodadas nessa luta aí. Então, sugiro que procurem um partido, no caso, o Pros (disse rindo). 
10/01/2020 (00:00)
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