Filosofia entra na Conferência das Mulheres Advogadas para questionar o lugar da mulher no mundo
Antes de discutir estratégia, carreira e liderança, a IV Conferência Estadual das Mulheres Advogadas abriu espaço para uma pergunta mais ampla: que lugar a mulher ocupa no mundo e quem definiu esse lugar? A reflexão foi proposta pelo professor de Filosofia da PUCPR Bortolo Valle, durante a palestra “O lugar da mulher no mundo: filosofia, liberdade e construção de si”, realizada nesta sexta-feira (18/9), na sede da OAB Paraná, em Curitiba.
Valle partiu de uma questão central da filosofia: aquilo que entendemos como natural é, de fato, natural ou foi construído ao longo do tempo? A partir da história do pensamento ocidental, o professor discutiu como ideias sobre natureza, moral, religião e razão ajudaram a estabelecer padrões para definir quem as pessoas deveriam ser e quais lugares poderiam ocupar.
Nessa construção, o discurso tem papel central. Para Valle, não se trata apenas daquilo que é dito, mas de um mecanismo capaz de estabelecer lugares, definir identidades e determinar o que é considerado normal, legítimo ou possível. Ao longo do tempo, esses discursos podem se transformar em padrões tão incorporados à sociedade que deixam de ser percebidos como construções e passam a parecer naturais.
É nesse processo que, segundo a leitura apresentada pelo professor, determinadas características associadas ao masculino foram tomadas como referência, enquanto outras relacionadas ao feminino foram colocadas em posição secundária. “O masculino venceu. A ausência do feminino deixou uma marca significativa na nossa civilização.”
O problema, para Valle, não está apenas na existência de diferenças, mas na transformação dessas diferenças em hierarquias. Quando um grupo é definido como referência, aquilo que escapa ao padrão pode ser deslegitimado, silenciado ou colocado à margem. O discurso, nesse sentido, não apenas descreve a realidade: também participa da construção dos lugares que cada pessoa passa a ocupar.
Quem pode ocupar o lugar de sujeito?
A discussão chegou então à produção do conhecimento e à própria ideia de sujeito. Valle questionou quem, historicamente, teve autorização para falar, produzir conhecimento e estabelecer os parâmetros do que seria considerado racional, moral ou legítimo.
Nesse percurso, a mulher ocupou, segundo a interpretação apresentada pelo professor, uma posição predominantemente definida por outros. “Na filosofia nunca houve pensamento feminino predominante. Não porque a mulher não pensava. Mas porque a mulher não podia pensar.”
A questão também alcançou a ideia de justiça. Se determinados grupos são reconhecidos como referência para estabelecer o que é legítimo, racional ou moral, aqueles que não se enquadram nesse padrão podem permanecer fora dos espaços de reconhecimento. “Quem a justiça atende? A justiça atende o igual. O igual discursivo, o epistêmico e o moral. O desigual cai fora.”
Mais do que uma questão de representação, a reflexão de Valle trata de quem tem o poder de construir o próprio lugar. Se os discursos sociais dizem às pessoas quem elas são e o que podem ser, romper com esses padrões exige primeiro reconhecer que eles existem.
Foi nesse ponto que o professor recorreu a Simone de Beauvoir e à conhecida formulação de que “ninguém nasce mulher: torna-se mulher”. A frase, publicada em “O segundo sexo”, sintetiza a ideia de que a condição feminina também é atravessada pelos papéis e expectativas construídos socialmente.
A partir dessa perspectiva, Valle apresentou a identidade como algo que também é construído ao longo da vida. “A alma não nasceu contigo, ela foi construída em você.”
Se aquilo que define uma pessoa também passa por discursos e construções sociais, a liberdade começa pela possibilidade de questioná-los. Para Valle, romper padrões não significa simplesmente rejeitar tudo o que foi recebido, mas compreender quais lugares foram atribuídos e decidir, conscientemente, quais deles ainda fazem sentido.
A reflexão levou, por fim, à responsabilidade inpidual diante dessas construções. Para o professor, reconhecer que a própria trajetória também é atravessada por expectativas sociais não significa aceitar passivamente os lugares que foram determinados, mas recuperar a possibilidade de participar da própria construção. “Não delegue a ninguém aquilo que tem que ser seu.”
Ao levar a filosofia para a IV Conferência das Mulheres Advogadas, a discussão ampliou o debate sobre a presença feminina nos espaços de decisão. Mais do que falar apenas sobre a ocupação desses lugares, a palestra propôs olhar para os discursos e estruturas que, ao longo do tempo, ajudaram a definir quem poderia ocupá-los, quem teria voz para se posicionar e quem seria reconhecido como sujeito.