De Renato Russo a Coetzee: Michel Laub fala sobre o livro “Verão na névoa” na Flap
Crédito de imagem: Antônio More
Michel Laub foi outro autor a se apresentar nas mesas da Feira Literária do Paraná no sábado (25/4), com mediação de Pedro Guerra. A mesa teve moderação de Pedro Guerra. Ao abordar a obra “Verão na névoa”, que vai de Renato Russo a Coetzee, a mesa tratou sobretudo de aspectos da produção autobiográfica.
O autor comentou as escolhas envolvidas na construção da narrativa de seu livro, um ensaio que transita entre primeira e terceira pessoa. Segundo ele, a estratégia se relaciona ao ritmo do texto. “Verdades são construções narrativas, são nossas versões de um determinado fato. Quando duas pessoas vivenciam a mesma situação, têm percepções distintas”, pontuou. Essas decisões, segundo Laub, reforçam a ideia de múltiplos pontos de vista.
Ele também destacou que incorporou ao texto uma espécie de jogo com formas narrativas, inspirado em Coetzee. Leitores do autor sul-africano, segundo Laub, podem reconhecer essas aproximações em alguns trechos. “Uma das homenagens que posso fazer ao Coetzee é, às vezes, emular o estilo dele”.
O mediador chamou atenção para a escrita direta de Laub, especialmente na forma como trata a masculinidade — algo ainda pouco comum entre autores homens. O escritor observou que tanto Renato Russo quanto Coetzee, citados em Verão na névoa, também exploram esse tema. “O Renato abriu as portas lá atrás”, destacou.
Narrativa autobiográfica
Embora a obra tenha caráter autobiográfico, Laub afirma buscar conexões com elementos culturais mais amplos. “A questão do autobiográfico hoje na arte não se restringe a mim”, observou.
Para ele, a autobiografia vai além de ações vividas. “Inclui os livros que você leu, a forma como pensa e como se expressa”, explicou. Nesse sentido, o modo como um autor tenta traduzir o que está dentro de si envolve técnica, mas também identidade.
Laub ainda avaliou que o mundo atual se mostra pouco favorável à leitura reflexiva, o que exige certa resiliência por parte dos escritores. “Posso desistir, ir para a cama e chorar ou seguir em frente”, afirmou. Para ele, existem diferentes formas de otimismo. “Posso reclamar de tudo isso, mas continuo produzindo. Escrever e publicar livros é um tipo de otimismo. Que tipo de otimismo já é outra questão”, concluiu.
Realizada pela OAB Paraná, a Flap segue até o fim de domingo. A programação pode ser conferida no perfil do evento no Instagram: flap_se.