Programação da Flap abre espaço para a fragilidade feroz da premiada poeta Mar Becker
A Festa Literária da Advocacia Paranaense (Flap) realizada no Museu Oscar Niemeyer recebeu na tarde deste sábado (25/4), logo após a apresentação do grupo de chorinho do intervalo para almoço, a escritora e poeta brasileira Mar Becker na mesa “A escrita na noite devorada: poesia, amor e outras penumbras”, mediada por Francisco Mallmann.
Graduada em Filosofia pela Universidade de Passo Fundo e especialista em Epistemologia e Metafísica pela Universidade Federal da Fronteira Sul, Mar Becker é autora de uma obra marcada pela delicadeza, pela densidade afetiva e pela investigação poética das ausências, da memória e das zonas de sombra da experiência humana. Este ano, ela recebeu o Prêmio APCA na categoria Poesia, pelo livro Noite devorada, que inspira o tema da conversa.
Ao abrir a mesa, Mallmann perguntou à escritora como a poesia surgiu em sua vida. “Sou de família simples e aos 13, 14 anos frequentava bibliotecas públicas. Numa delas descobri Augusto dos Anjos. Li a frase”, relatou, passando a recitar:
“Eu, filho do carbono e do amoníaco,Monstro de escuridão e rutilância,Sofro, desde a epigênese da infância,A influência má dos signos do zodíaco.”
Mar explicou que na época não entedeu muito, mas foi se sentindo confortável nessa exploração. “Como tenho uma irmã gêmea, a escrita foi o meu primeiro reduto de particularidade”. Na poesia, completou, desapareceram as associações com a irmã e a mãe, até então sempre presentes.
A autora também recitou trechos do próprio livro “Noite Devorada”, que sugeriu que fosse lido aos sussuros, para compreensão do que chamou de “fragilidade feroz”. Ao longo da mesa, Mar falou sobre processo criativo, escuta e permanência, destacando a poesia como forma de nomear o que muitas vezes escapa à linguagem comum e como espaço de elaboração sensível diante das inquietações mais prosaicas do cotidiano.
“Fazer trabalho em poesia, para mim, envolve sempre um nível muito grande de dificuldade e de graça. Em Passo Fundo, encontro com a matéria bruta. Sempre digo que não fui uma poeta preparada por currículos, mas por mulheres conversando, fofocando”. A escritorora contou que a mãe tem um salão de beleza e que adora mergulhar nesse ambiente. Mar citou como exemplo o caso de uma cliente que queria tirar o megahair. “Fiquei assistindo à descontrução. E imaginem — minha mãe antes foi açougueira e costureira. Agora está estudando psicanálise. Vai lavando o cabelo de uma cliente e falando sobre Lacan”, ilustrou, arrancando risos da plateia lotada.
Promovida pela OAB Paraná, a primeira edição da Flap segue até a noite de domingo, 26 de abril. A programação da festa está no perfil do evento no Instagram: @flap_se
Crédito de imagem: Antônio More