Tati Bernardi fala na FLAP sobre autoficção e os limites entre realidade e imaginação
A escritora e roteirista Tati Bernardi esteve na FLAP na manhã deste domingo (26/4) para falar sobre os limites — e as liberdades — da autoficção. Na mesa “A boba da corte. Autoficção e outros assuntos”, uma das vozes mais originais da ficção contemporânea brasileira discutiu como realidade e imaginação se embaralham quando o escritor coloca a própria vida na página.
Bernardi é conhecida pela ironia precisa com que disseca as relações humanas e as contradições da vida moderna. Na conversa mediada por Marion Bach, ela explicou como a autoficção não é, necessariamente, confissão — mas uma forma sofisticada de mentira autorizada, em que o autor usa a própria experiência como matéria-prima para construir algo que vai muito além do autobiográfico.
Questionada sobre o que escreve e não publica, ela foi direta: “Quando eu não publico, eu jogo fora.” Mas admitiu que muitas vezes o texto que começa de um jeito se transforma em outra coisa — e é essa versão transformada que vai para o leitor. Roteirista também para TV e cinema, ela mencionou que tem vários projetos não publicados nessa área, seja por dificuldade de aprovação nos canais, seja porque ela mesma vetou.
Foi a morte do avô, aos 12 anos, que moldou a voz literária de Tati Bernardi. Antes disso, ela escrevia desde criança — mas de forma completamente diferente. “Eu era muito dramática, não tinha humor, não tinha ironia. Eram textos assim, eu achava que eu era uma poeta tuberculosa do século XIX”, contou, arrancando risos da plateia. Sua mãe ficava tão assustada com os escritos que nunca deixava a janela do quarto totalmente aberta.
A virada veio com o luto. Para lidar com a dor da perda, ela começou a escrever sobre os vizinhos que apareceram no velório — aqueles de quem o avô nem gostava. “Para me acalmar daquela dor, eu comecei a escrever um monte de gente que tinha ido no velório dele. E eu percebi que, de narrar isso com um certo humor, aquilo me acalmava. Ali começou a maneira como eu escrevo até hoje.” Com 19 anos, publicou pela primeira vez.
A questão da memória e da verdade também atravessou a conversa. Bernardi contou que frequentemente não sabe distinguir o que de fato aconteceu do que foi construído pela narrativa. Lembrou de uma história que conta há anos — sobre uma prima que fazia piruetas na praia enquanto ela machucava o pé numa trilha de conchinhas, e sua mãe a humilhava comparando as duas. Quando confrontou a família, a prima disse que nunca fez ginástica e a mãe garantiu que nunca houve trilha nenhuma na praia de Ubatuba. Mas, ao contar a história na Flip, uma mulher na plateia se levantou para dizer que a trilha existe e que ela própria já cortou o pé lá. “Para mim é 100% verdade”, disse Bernardi. A cena ilustra bem sua relação com a autoficção: a experiência emocional pode ser mais real do que o fato em si.
Outro episódio que revelou sua voz literária veio de uma parceria profissional. Ao escrever novela com a dramaturga Maria Del Priori, recebeu uma observação que mudou sua forma de enxergar o próprio trabalho: todos os personagens que se pareciam com ela, ela escrevia bem; os que não tinham nada a ver, ela torcia para que se parecessem. “Ela falou: isso é o estilo, você tem uma voz, mas você não consegue escrever novela.” Bernardi saiu da reunião achando que tinha sido demitida — e tinha. Mas ganhou, segundo ela, algo mais valioso: a consciência da própria voz.
A escritora também relacionou a escrita à história da própria família. “Eu acho que eu virei escritora para poder dar nome para o troço, o negócio, o piripaque”, disse, referindo-se à forma como seus avós e pais lidavam com crises de angústia e depressão sem nunca nomeá-las — cada um com seu eufemismo particular para o que hoje seria chamado de depressão. “Eu venho de uma família de pessoas que tem essa característica da depressão, mas que lidou com o humor.”
A leveza, para Bernardi, não é um gesto menor — é estratégia. “O humor quebra umas barreiras nossas. Você fala: ‘puta, eu não vou lidar com isso’, e aí lida através do humor sem nem perceber.” Para ela, o cinismo funciona como proteção, mas também como passaporte para dizer tudo: “O cinismo, com certeza, é uma proteção, mas a partir dele você também consegue falar tudo.”
E o humor, defendeu, alcança lugares que textos longos e acadêmicos não chegam. Comparou um artigo de três páginas sobre fascismo a uma esquete de dois minutos do Porta dos Fundos sobre o mesmo tema: a esquete, disse ela, é o que fica martelando a cabeça o dia inteiro. “É a esquete que fez eu pensar no problema o dia inteiro — e o textão não.”